Finais felizes

Minhas últimas postagens foram sobre filmes. Eu ia escrever sobre algo diferente, mas depois de rever o que escrevi sobre o Encantada, da Disney, após uma discussão acirrada sobre o filme durante a disciplina de Sociologia da Comunicação, foi impossível não querer compartilhar meus pensamentos sobre como os filmes da Disney não são tão direcionados ao público infantil quanto se imagina. Na realidade, com suas mensagens escondidas, Encantada poderia ser considerado bem adulto.

É quase impossível pensar em filmes mais clássicos e populares do que Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida, mas a Walt Disney Pictures conseguiu produzir um filme ainda mais encantador... e muito mais recheado de mensagens subliminares. Encantada, lançado no ano passado, escrito por Bill Kelly e dirigido por Kevin Lima, conta a história de uma – adivinhem! – doce, linda e virgem princesinha chamada Giselle (Amy Adams), que sonhava – adivinhem novamente – em encontrar seu Príncipe Encantado, com o qual pudesse se casar e compartilhar o beijo do verdadeiro amor. Ela o encontrou. Ele se chamava Edward (James Marsden), e, a princípio, parecia ter um só defeito: uma cruel madrasta, que não queria perder o posto de rainha por nada nesse mundo.
Até agora, nenhuma novidade, mas é aí que entra uma das grandes “sacadas” do filme: a bruxa acaba enviando Giselle para um lugar terrível, onde as pessoas não são doces e agradáveis como os animais, amiguinhos da princesa. Onde casamentos duram pouco... Onde não existe o tal de “felizes para sempre”. A madrasta manda Giselle para o mundo real.
Inicialmente, o filme é, como a maioria das produções da Disney, um desenho. Mas, de repente, para a surpresa de todos (minha, inclusive), Giselle sai do bueiro – sim, um bueiro – que conecta o real e a fantasia, vestida de noiva, linda, ruiva... e em carne e osso.
A princesa, perdida, procurando o castelo de Edward, acaba sendo resgatada pelo advogado Robert (Patrick Dempsey), um homem de verdade – em todos os sentidos. Ele (meio a contragosto) e sua filha, Morgan, levam Giselle para seu apartamento para que ela possa se acalmar. A princípio, Robert simplesmente pensa que ela é louca. E quem pode culpá-lo? Uma mulher angelical, doce, que usa cortinas para costurar vestidos, que está sempre sorrindo, cantando e clamando que é uma princesa e que seu príncipe virá lhe buscar, em meio ao caos de Nova Iorque, só pode ser considerada insana.
Aos trancos e barrancos, Robert acaba acostumando-se ao jeito feliz de Giselle – o que, entretanto, não o impede de tentar explicar para a doce princesa como o mundo real funciona. Ela fica arrasada ao descobrir que casamentos não duram para sempre e chora ao presenciar a briga de um casal, cliente de Robert, que quer se divorciar. Mesmo assim, Giselle espalha alegria por onde passa, com sua cantoria digna de uma opereta e ajudando, inclusive, Robert a se reconciliar com sua namorada Nancy. Só que, aos trancos e barrancos, o coração de Robert vai amolecendo demais, e ele acaba – que surpresa! – se apaixonando por Giselle.
Agora... A parte mais interessante do filme não é a história em si, mas as mensagens subliminares e conceitos há muito estabelecidos, escondidos atrás de inocentes cenas. Para começar, o filme mostra como os estereótipos dos contos de fada não se encaixam exatamente no mundo real. O príncipe era lindo, robusto e corajoso, mas, ao se fazer a transferência para o mundo real, nota-se que ele era extremamente – não há outra palavra – burro e narcisista. Além disso, a relação entre Nancy, a namorada de Robert, decidida, moderna e fazendo jus ao conceito de mulher atual e a bruxa má certamente não foi coincidência. Além disso, Rainha Narissa, a bruxa má, era relativamente feia, sedutoramente manipuladora e poderosa, utilizando o que todas as mulheres também já usaram a seu favor – isto é, as que não seguem o padrão de mulher “boazinha, virgem e pura”. Esse conceito, aliás, Giselle representa muito bem durante o filme todo, tornando-se um tanto quanto irritante. Eu, pelo menos, sempre achei a bruxa má um personagem muito mais fascinante do que a princesinha inocente.
O filme mostra claramente a imagem de mulher pura, ingênua e indefesa, e a Igreja prega a virgindade, a castidade e a submissão da mulher ao homem. Longe de mim querer criticar a religião. Mas realmente, a idéia de perfeição e final feliz é um tanto quanto irreal e frustrante.
Entre pôsteres do sexual musical Chicago, atrás da figura do príncipe virgem, a maçã simbolizando Adão, Eva e o pecado, e a bruxa sempre aparecendo na água, que representa as emoções através das quais todas as mulheres podem ver, é possível afirmar que o filme é mais do que uma grande fantasia: é uma representação do real imaginário.
Por mais que o filme brinque com a idéia de que no mundo real não existe o felizes para sempre, ele ainda termina dessa maneira. Afinal, ainda é uma produção cinematográfica feita para... É. Crianças, né? No entanto, a história me pareceu mais direcionada a nós, jovens e adultos que passaram a infância escutando histórias como Bela Adormecida e Branca de Neve. É uma quebra de paradigmas atrás do outro e, ainda assim, o final é feliz e tudo parece dar certo, com Nancy, a mulher moderna que procurava por um Príncipe Encantado fugindo com o próprio para o mundo da fantasia e a princesa ingênua optando por permanecer no mundo real, com seu verdadeiro – e macho – amor. E todos viveram felizes para sempre...
Ou será que não?

THE END

3 Responses
  1. Kauê Says:

    A Raquel é uma mulher, encantada! ;D

    http://popclubmix.blogspot.com/


  2. Dennis Mag Says:

    visitei seu blog...dê uma olhada no meu, e começaremos então as visitas recíprocas..adoro música pop também...


  3. Anônimo Says:

    Li as coisas que você escreveu sobre o filme e realmente todos os filmes da disney tem mensagens subliminares. Com certeza ninguém notou até agora, porém assistindo hoje o final do filme percebi um sinal satanico, na hora que a NANCI ( sei lá) Pede um minutinho para atender o celular, ai não esta o problema, mas sim o sinal que ela faz com as mãos e o pior de tudo que é dentro de uma igreja! Complicado mesmo! Mas afinal, duvido que todo o sucesso não seja todo baseado em essas mensagens subliminares que alguns preferem pensar que é algo da cabeça!


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